São Marcos Evangelista: Iconografia, Memória Petrina e o Símbolo do Leão Alado

Iluminación de un evangeliario bizantino que representa a San Marcos Evangelista sentado escribiendo.

A identidade neotestamentária de João Marcos e o meio apostólico

As primeiras referências documentais a Marcos surgem no livro dos Atos dos Apóstolos sob a designação hebraico-romana de João Marcos. A casa de sua mãe, Maria, situada em Jerusalém, servia de ponto de congregação e refúgio para a comunidade cristã primitiva por volta do ano 44 d.C., logo após a libertação de Pedro da prisão herodiana, conforme se encontra registado na Sacra Bibbia da Conferência Episcopal Italiana. A sua pertença ao primeiro núcleo apostólico articula-se tanto com a linhagem levítica quanto com laços familiares estreitos, sendo explicitamente indicado nas cartas paulinas como primo de Barnabé.

A trajetória ministerial do jovem discípulo revela tensões e reconciliações dentro do movimento missionário primitivo. Entre os anos 45 e 48 d.C., Marcos integrou a primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé rumo a Chipre e à Panfília. Todavia, em Perge, apartou-se do grupo para regressar a Jerusalém, facto que gerou uma divergência severa entre Paulo e Barnabé por volta de 49-50 d.C., culminando na separação temporária das equipas apostólicas. Anos mais tarde, o conflito dissipou-se, encontrando-se Marcos em Roma integrado no círculo de apoio de Paulo e ligado espiritualmente a Pedro, que na sua primeira epístola o designa afetuosamente como seu filho.

O testemunho de Pápia de Hierápolis e a transmissão da catequese petrina

A mais antiga memória externa sobre a composição do texto evangélico provém de Pápia, bispo de Hierápolis no início do século II, cuja obra sobreviveu através de citações preservadas na História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia (Livro III, Capítulo 39). Pápia afirma textualmente que Marcos desempenhou a função de intérprete (hermeneutes) de Pedro e assentou por escrito, com escrupulosa exatidão, tudo aquilo de que se recordava a respeito dos ditos e feitos de Cristo, embora sem procurar estabelecer uma ordem cronológica estrita da vida pública do Mestre.

Esta caracterização patrística fundamenta a compreensão do segundo Evangelho como o eco redigido da pregação viva de Pedro perante os fiéis de Roma. O texto marciano reflete o tom direto, vívido e despojado dos relatos testemunhais, dirigindo-se predominantemente a ouvintes e leitores de matriz helenística e romana, para os quais os costumes judaicos e as expressões em aramaico careciam de explicação intratextual.

Prioridade cronológica e singularidade teológica do segundo Evangelho

A crítica textual contemporânea e a exegese histórica convergem amplamente na tese da prioridade marcana, situando a composição do texto grego entre os anos 65 e 70 d.C., no contexto imediato da perseguição neroniana e da iminente destruição do Templo de Jerusalém. O Evangelho segundo são marcos evangelista estrutura-se em torno de uma cristologia narrativa centrada no mistério da Paixão e no denominado segredo messiânico, onde a identidade do Messias só é plenamente revelada e confessada ao pé da cruz pelo centurião romano.

Em termos filológicos, os manuscritos mais antigos e autorizados da tradição alexandrina, designadamente o Códice Vaticano e o Códice Sinaítico, concluem a narrativa no versículo oitavo do capítulo 16, perante o túmulo vazio. O designado «final longo» (Mc 16,9-20), embora acolhido pelo cânone eclesial e pelo Magistério como inspirado, constitui do ponto de vista crítico uma adição canónica de época pós-apostólica imediata, redigida para harmonizar as aparições do Ressuscitado com os restantes relatos evangélicos.

A exegese dos quatro seres viventes em Ezequiel e no Apocalipse

A identificação iconográfica dos evangelistas assenta na hermenêutica cristã primitiva das visões proféticas do Antigo e do Novo Testamento. No capítulo primeiro do livro de Ezequiel, o profeta contempla quatro figuras aladas sustentando o carro da glória divina: um homem, um leão, um touro e uma águia. Esta visão reaparece no capítulo quarto do Apocalipse de São João, onde os quatro seres viventes proclamam continuamente a santidade de Deus no trono celestial.

A Igreja primitiva leu estas imagens não como simples metáforas cósmicas, mas como figuras premonitórias da quádrupla manifestação do único Evangelho de Jesus Cristo. Cada criatura representava uma dimensão do mistério da Encarnação, Morte, Ressurreição e Ascensão do Senhor, cabendo aos teólogos patrísticos a tarefa de atribuir cada ser específico a cada um dos quatro autores canónicos.

A interpretação de Santo Ireneu de Lião e a transição da simbologia

No final do século II, no tratado Contra as Heresias, Santo Ireneu de Lião formulou a primeira correspondência sistemática do Tetramorfo. Todavia, o arranjo de Ireneu diferia daquele que se tornaria normativo séculos mais tarde. Na visão do bispo de Lião, o leão personificava a realeza e o poder soberano do Filho de Deus, razão pela qual o atribuiu originariamente ao Evangelho de São João, reservando a figura alada do homem a Mateus, a do bezerro ou touro a Lucas e a da águia a Marcos, em virtude do espírito profético com que este último inicia a sua narrativa citando Isaías.

Esta formulação inicial de Ireneu refletia a primazia teológica da majestade divina de Cristo nos debates contra o gnosticismo. No entanto, o sistema permaneceu em aberto no pensamento cristão oriental e ocidental ao longo de mais de um século, gerando variações interpretativas em autores como Santo Agostinho, até que uma nova síntese patrística redefiniu o simbolismo.

A fixação jeromiciana: a voz que clama no deserto e o leão alado

A configuração definitiva dos atributos evangélicos que viria a triunfar universalmente no Ocidente cristão foi estabelecida por São Jerónimo no seu prólogo ao Comentário sobre São Mateus e na correspondência exegética. Jerónimo associou o leão alado a são marcos evangelista a partir da análise incisiva do prólogo da sua obra: «Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor».

O rugido potente que ecoa na solidão das paragens áridas da Judeia, personificado pelo ministério precursor de São João Batista, evocou imediatamente a soberania e a força do leão. Na patrística latina, o leão tornou-se a imagem da realeza de Cristo e da sua Ressurreição gloriosa, inspirada pela crença dos bestiários da Antiguidade tardia segundo a qual os leões nasciam aparentemente sem vida e eram despertados ao terceiro dia pelo sopro e rugido do seu progenitor.

O testemunho patrístico da cátedra de Alexandria e as tradições do martírio

Para além do seu papel de redator evangélico em Roma, a tradição eclesiástica registada a partir do século IV em fontes compiladas na Enciclopedia Italiana Treccani atribui a Marcos a fundação da Igreja de Alexandria no Egito e a ordenação de Aniano como seu sucessor episcopal. A comunidade cristã da grande metrópole helenística reivindicou desde a Antiguidade tardia a sua origem direta a partir da cátedra marciana.

A narrativa do seu martírio violento encontra-se estruturada nas Actas de Marcos, redigidas entre os séculos IV e V. Segundo estes textos hagiográficos tradicionais, os sacerdotes pagãos de Serápis teriam capturado o evangelista durante as celebrações pascais no bairro costeiro de Bucolis, arrastando-o por cordas atadas ao pescoço através de terrenos pedregosos até à sua morte. Embora careça de confirmação documental coeva do século I, este episódio tornou-se um marco indelével na memória litúrgica oriental e copta.

A celebração litúrgica a 25 de abril e o calendário martirológico

A memória universal de são marcos evangelista encontra-se fixada no dia 25 de abril em toda a tradição litúrgica católica de rito romano, assim como nos antigos calendários orientais e no Martirologio Romano. Esta data, historicamente associada ao dia da sua morte em solo egípcio segundo o relato hagiográfico, coincidia no mundo romano clássico com as festividades pagãs das Robigálias.

Por essa razão, a liturgia romana medieval associou o dia 25 de abril à celebração das Ladainhas Maiores, caracterizadas por solenes procissões e preces pelas colheitas e pela fertilidade da terra, sobrepondo o patrocínio celestial do santo evangelista sobre as antigas práticas agrárias da primavera europeia.

A translação altomedieval das relíquias para a lagoa de Veneza

O ano de 828 d.C. assinala a viragem geopolítica e devocional na história do culto marciano. Dois mercadores vênetos, Buono da Malamocco e Rustico da Torcello, transportaram os restos mortais atribuídos ao evangelista desde a cidade de Alexandria até à nascente comunidade cívica da lagoa veneciana. Os relatos hagiográficos altomedievais da Translatio Sancti Marci descrevem a operação naval como um resgate piedoso motivado pela crescente instabilidade política no califado abássida.

A chegada dos restos mortais levou o doge Giustiniano Participazio a consagrar o evangelista como patrono supremo do Estado vêneto, suplantando o culto mais antigo de São Teodoro de Amasea. O corpo do santo foi depositado na capela palatina ducal, edificada especificamente para o acolher e que ao longo dos séculos se transformou na monumental Basílica de São Marcos.

A iconografia do leão triunfante e a teologia política da República Sereníssima

Com a consolidação do padroado ducal, a imagem de são marcos evangelista e do seu leão alado converteu-se no emblema visual indissociável da República de Veneza. A representação iconográfica desenvolveu duas variantes codificadas pela tradição artística: o leão em postura andante ou majestática sustentando um livro aberto com as palavras latinas Pax tibi Marce, evangelista meus, e o leão in moeca, agachado com o livro recolhido.

A hagiografia cívica veneziana desenvolveu a lenda apócrifa segundo a qual um anjo teria pronunciado tal saudação a Marcos quando este aportara outrora às ilhas da lagoa, profetizando que ali repousaria o seu corpo. Não obstante a ausência de fundamento histórico para esta lenda, o símbolo uniu a sacralidade do texto evangélico à autoridade cívica e militar da Sereníssima, figurando em fortificações marítimas, mosaicos bizantinos e no estandarte oficial da esquadra republicana.

Distinções críticas entre o dado histórico e a elaboração hagiográfica

A investigação bíblica e histórica moderna exige uma distinção metodológica clara entre o testemunho documental do século I e os desenvolvimentos lendários posteriores. O Novo Testamento confirma com clareza o ministério de João Marcos em Jerusalém, o seu serviço conjunto com Paulo e Barnabé, e a sua estreita comunhão com Pedro no ambiente romano pré-martirial.

Por outro lado, tradições tardias que procuraram identificar o evangelista com figuras anónimas da narrativa da Paixão — tal como o jovem que fugiu despido no Getsémani (Mc 14,51) — permanecem puras conjeturas hermenêuticas sem sustentação textual fidedigna. Do mesmo modo, as narrativas sobre a evangelização de Aquileia e os pormenores do martírio em Bucolis pertencem ao domínio da edificação hagiográfica da Igreja dos séculos IV a IX, refletindo a veneração da comunidade eclesial e a sua necessidade de legitimar sucessões apostólicas locais.

Fontes e leituras documentais

Perguntas frequentes

Porque é que São Marcos é representado por um leão alado?

A associação resulta da exegese patrística consolidada por São Jerónimo com base em Ezequiel 1 e Apocalipse 4. O Evangelho de Marcos inicia-se com a «voz que clama no deserto», imagem ligada ao rugido do leão, símbolo da realeza e da Ressurreição de Cristo.

Qual foi a relação histórica de Marcos com o apóstolo Pedro?

Segundo o testemunho do bispo Pápia de Hierápolis no século II, Marcos desempenhou o papel de intérprete de Pedro em Roma, registando com rigor as memórias orais e as catequeses do apóstolo para estruturar o seu relato evangélico.

Qual é a data litúrgica consagrada a São Marcos?

A festa litúrgica universal de são marcos evangelista é celebrada a 25 de abril no calendário litúrgico ocidental e nos martirológios históricos, data que a tradição antiga assinala como o dia do seu martírio.

São Marcos presenciou diretamente os milagres de Cristo?

Os dados canónicos e patrísticos indicam que Marcos não foi um discípulo direto da vida pública de Jesus nem apóstolo ocular, tendo recolhido os factos a partir da pregação autorizada de Pedro e do convívio com a comunidade primitiva de Jerusalém.

Como se deu a trasladação do corpo de São Marcos para Veneza?

Em 828 d.C., navegadores venezianos trasladaram as relíquias atribuídas ao evangelista a partir de Alexandria do Egito para Veneza, onde o santo foi proclamado padroeiro cívico supremo e sepultado na basílica erigida em sua honra.

Qual é a tese crítica sobre a prioridade do Evangelho de Marcos?

A maioria dos exegetas contemporâneos sustenta a prioridade marcana, considerando o texto redigido em grego por volta de 65-70 d.C. como o mais antigo dos quatro Evangelhos canónicos, servindo de fonte documental a Mateus e Lucas.