A formação teológica em Roma e o ministério pastoral em Bérgamo
Angelo Giuseppe Roncalli nasceu a 25 de novembro de 1881 em Brusicco, no município de Sotto il Monte, província de Bérgamo, sendo o quarto filho de Giovanni Battista Roncalli e Marianna Mazzola. Concluiu o doutoramento em Sagrada Teologia no Pontifício Seminário Romano dell'Apollinare a 13 de julho de 1904 e recebeu a ordenação sacerdotal na igreja de Santa Maria in Montesanto a 10 de agosto de 1904.
Entre 1905 e 1914, desempenhou as funções de secretário particular do bispo de Bérgamo, Giacomo Maria Radini Tedeschi, enquanto lecionava História Eclesiástica no seminário diocesano. A investigação sobre as visitas pastorais de São Carlos Borromeo na diocese bergamasca marcou o seu método de estudo e a sua conceção de reforma da Igreja, afastando a ideia de que as suas posteriores decisões conciliares resultaram de impulsos fortuitos. Durante a Primeira Guerra Mundial, entre 1915 e 1918, serviu nas estruturas de saúde militar e como capelão castrense em hospitais de retaguarda.
A experiência diplomática no Oriente e o contacto com comunidades não católicas
A 18 de janeiro de 1921, o Papa Bento XV transferiu Roncalli para Roma para dirigir o Conselho Central para a Itália da Pontifícia Obra da Propagação da Fé. A 19 de março de 1925, após ser consagrado arcebispo titular de Areópolis, iniciou a sua missão na Bulgária como Visitador e posteriormente Delegado Apostólico. Foi aí que contactou de forma continuada com o cristianismo ortodoxo e as suas hierarquias.
O Papa Pio XI designou-o a 27 de novembro de 1934 para a sede titular de Mesembria, nomeando-o Delegado Apostólico na Turquia e na Grécia, com residência em Istambul. Conforme documenta o Dizionario Biografico degli Italiani da Treccani, esse período consolidou a sua perceção sobre a urgência de uma aproximação respeitosa com os cristãos separados de Roma e com as minorias religiosas do Médio Oriente.
Ação humanitária em Istambul e a proteção de refugiados judeus
Durante a Segunda Guerra Mundial, na delegação apostólica de Istambul, Roncalli estabeleceu redes de cooperação com diplomatas de países neutrais, delegações da Cruz Vermelha e diversas agências internacionais de auxílio. Através da emissão de certidões de batismo provisórias e de salvo-condutos, facilitou o trânsito seguro de civis e refugiados judeus em fuga da perseguição em território centro-europeu e balcânico.
A historiografia recente evita estimativas numéricas especulativas, que oscilam desprovidas de suporte empírico entre centenas e dezenas de milhares de pessoas. As investigações preservadas no arquivo da Fondazione Papa Giovanni XXIII comprovam que a intervenção do delegado consistiu em operações de mediação e envio sistemático de documentação consular e religiosa para mitigar as ordens de deportação.
Da Nunciatura em Paris ao Patriarcado de Veneza
A 22 de dezembro de 1944, o Papa Pio XII nomeou-o Núncio Apostólico em França, cargo que exerceu num contexto político tenso subsequente à libertação do território francês. Durante oito anos geriu as relações bilaterais com o governo republicano e acompanhou os debates sobre o clero operário e a renovação teológica francesa.
Criado cardeal a 12 de janeiro de 1953, foi preconizado Patriarca de Veneza três dias depois. Na cátedra de São Marcos, Roncalli centrou a sua ação na pastoral paroquial, nas visitas administrativas e na proximidade aos fiéis. O seu diário espiritual, iniciado na juventude em 1895 e continuado até ao termo da sua existência, seria publicado postumamente com o título Il Giornale dell'Anima, testemunhando a sua contínua disciplina interior.
A eleição de 1958 e a desconstrução da tese do pontificado de transição
Com o falecimento de Pio XII, o conclave elegeu Angelo Giuseppe Roncalli a 28 de outubro de 1958 como 261.º Bispo de Roma e Soberano do Estado da Cidade do Vaticano, adotando o nome de São João XXIII e recebendo a solene coroação papal a 4 de novembro de 1958.
Diversos analistas e membros do colégio cardinalício supuseram que a sua idade avançada, com 76 anos na data da eleição, asseguraria um governo breve de mera transição administrativa. Os registos manuscritos de São João XXIII revelam, contudo, que o pontífice assumiu a sé romana com um programa reformador claro, alicerçado em décadas de reflexão histórica, canónica e pastoral.
A convocação conciliar e o anúncio de São Paulo Extramuros
A 25 de janeiro de 1959, na Basílica de São Paulo Extramuros, o pontífice anunciou publicamente a decisão de convocar um Concílio Ecuménico para a Igreja universal, juntamente com a realização de um Sínodo para a Diocese de Roma e a reforma do Código de Direito Canónico. O anúncio surpreendeu as cúrias eclesiásticas pela sua amplitude jurídica e pastoral.
O projeto não procurava a definição de novos dogmas condenatórios, mas sim a atualização pastoral da linguagem da Igreja face à contemporaneidade. As análises publicadas na Enciclopedia dei Papi da Treccani confirmam que a perspetiva de unidade cristã esteve presente desde a génese da preparação conciliar.
A criação do Secretariado para a Unidade e a presença de observadores
Em junho de 1960, por determinação direta do Papa, foi estabelecido o Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos, confiado à direção do Cardeal Augustin Bea. Este organismo teve como encargo preparar a participação de delegações de confissões cristãs não católicas nas sessões solenes e de trabalho do concílio.
Pela primeira vez na história dos concílios ecuménicos da era moderna, representantes anglicanos, luteranos, calvinistas e ortodoxos receberam estatuto oficial de observadores, com acesso às atas e espaço de diálogo com os padres conciliares. Esta iniciativa marcou uma viragem estrutural no método de relacionamento ecuménico da Santa Sé.
A supressão do antijudaísmo litúrgico na Sexta-feira Santa
No domínio das relações com o judaísmo, o pontífice interveio na liturgia da Paixão do Senhor. Ordenou a eliminação da expressão tradicional pro perfidis Judaeis das orações universais de Sexta-feira Santa, fórmula que ao longo dos séculos alimentara interpretações pejorativas contra o povo judeu.
Esta modificação textual abriu caminho para os debates que culminaram na elaboração e posterior aprovação da declaração conciliar Nostra Aetate. Ao banir a linguagem hostil do rito latino, São João XXIII estabeleceu as bases do reconhecimento da herança espiritual comum entre cristãos e judeus, rejeitando qualquer fundamentação teológica para o antissemitismo.
O magistério social e a diplomacia durante as crises internacionais
A 15 de maio de 1961, foi promulgada a carta encíclica Mater et Magistra, dedicada à questão social, ao desenvolvimento agrícola e aos desequilíbrios económicos mundiais sob a ótica do Evangelho. Mais tarde, a 4 de outubro de 1962, tornou-se o primeiro papa desde o século XIX a viajar de comboio para fora de Roma, cumprindo uma peregrinação penitencial aos santuários de Loreto e Assis antes da abertura conciliar.
A 11 de outubro de 1962, inaugurou o Concílio Vaticano II com o discurso Gaudet Mater Ecclesia, proferindo nessa mesma noite o célebre Discurso da Lua perante os fiéis reunidos na Praça de São Pedro. Duas semanas depois, a 25 de outubro de 1962, interveio com uma mensagem radiofónica mundial apelando à contenção diplomática durante a Crise dos Mísseis de Cuba, iniciativa que foi reconhecida na primavera de 1963 com a atribuição do Prémio Balzan para a Paz.
A encíclica Pacem in Terris, o falecimento e o processo canónico
A 11 de abril de 1963, publicou a encíclica Pacem in Terris, redigida não apenas para o episcopado católico, mas dirigida universalmente a «todos os homens de boa vontade», tratando do desarmamento, dos direitos humanos e da ordem ética global. O pontífice faleceu no Palácio Apostólico a 3 de junho de 1963, vítima de peritonite provocada por um cancro gástrico.
A 3 de setembro de 2000, o Papa João Paulo II beatificou-o na Praça de São Pedro. A sua canonização decorreu a 27 de abril de 2014, presidida pelo Papa Francisco na presença do Papa Emérito Bento XVI, conforme detalhado na homilia oficial da Santa Sé. O Papa Francisco utilizou a prerrogativa canónica de dispensa do segundo milagre atestado por comissão médica, fundamentando o decreto na universal fama de santidade de São João XXIII e nos frutos doutrinais e ecuménicos do Concílio Vaticano II.
Conservação corporal e distinções no culto
Na sequência da exumação do corpo em 2001 para a sua trasladação para a nave da Basílica de São Pedro, o corpo do pontífice foi submetido a técnicas modernas de conservação química e acondicionamento em urna selada. A integridade observada deve-se aos processos científicos de embalsamamento e preservação cadavérica, evitando a Igreja apresentar a conservação orgânica como fenómeno sobrenatural extracanónico.
O culto e a iconografia de São João XXIII representam-no habitualmente com as vestes corais de bispo de Roma, associado ao báculo e aos textos do Concílio Vaticano II, assinalando a sua devoção contínua e a sua dedicação ao serviço da reconciliação entre os povos e as confissões religiosas.
Fontes e leituras documentais
- Dizionario Biografico degli Italiani (Istituto della Enciclopedia Italiana Treccani): Biografia crítica de Angelo Giuseppe Roncalli com levantamento das etapas académicas, pastorais e diplomáticas.
- Enciclopedia dei Papi (Istituto della Enciclopedia Italiana Treccani): Estudo analítico sobre o conclave de 1958, as encíclicas sociais e a convocação do Concílio Vaticano II.
- Fondazione Papa Giovanni XXIII (Bérgamo): Fundo arquivístico com manuscritos autógrafos, correspondência diplomática e edições críticas do Giornale dell'Anima.
- Santa Sé: Textos das encíclicas Mater et Magistra (1961) e Pacem in Terris (1963), bem como as atas e decretos da beatificação (2000) e da canonização solene (2014).
Perguntas frequentes
Quando nasceu e quando foi eleito Papa São João XXIII?
Angelo Giuseppe Roncalli nasceu a 25 de novembro de 1881 em Sotto il Monte (Bérgamo) e foi eleito Sumo Pontífice a 28 de outubro de 1958, sucedendo ao Papa Pio XII.
Que alteração litúrgica fez em relação à comunidade judaica?
Ordenou a supressão formal da expressão 'pro perfidis Judaeis' das preces de Sexta-feira Santa, eliminando elementos de antijudaísmo litúrgico e preparando as bases para a declaração conciliar Nostra Aetate.
Como promoveu o ecumenismo no Concílio Vaticano II?
Criou em 1960 o Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos e convidou delegações de Igrejas e comunidades cristãs não católicas a participarem como observadores nas sessões de trabalho do concílio.
Qual foi a sua intervenção na proteção de refugiados na Segunda Guerra Mundial?
Como Delegado Apostólico na Turquia e Grécia, coordenou com diplomatas, organizações de socorro e a Cruz Vermelha a emissão de documentos e salvo-condutos para proteger refugiados judeus da deportação.
Por que razão não foi exigido um segundo milagre na sua canonização?
O Papa Francisco utilizou a faculdade jurídica e canónica pontifícia de dispensa de um segundo milagre formal, fundamentando a decisão na universalidade da sua fama de santidade e nos frutos pastorais do Concílio.
O corpo exposto na Basílica de São Pedro é um milagre incorrupto?
Não. O estado de conservação do corpo deve-se a procedimentos técnicos e químicos de embalsamamento e preservação cadavérica realizados por especialistas após a sua morte e na exumação de 2001.