Em Portugal, a família franciscana é frequentemente reconhecida através de Santo António de Lisboa. Para compreender como Fernando Martins se tornou frade menor, porém, é necessário regressar a São Francisco de Assis, ao movimento nascido na Úmbria e aos primeiros missionários que atravessaram a Península Ibérica rumo a Marrocos. A ligação portuguesa não é um apêndice tardio: pertence à primeira geração da Ordem.
Antes de fundar essa fraternidade, Francisco foi filho de um comerciante de tecidos, combatente numa guerra entre cidades e prisioneiro. A pobreza não era o ambiente em que nasceu, mas uma escolha amadurecida através de doença, contacto com leprosos, oração e conflito familiar. Os seus escritos permitem separar a memória pessoal das cenas desenvolvidas pelas biografias religiosas posteriores.
Da casa de um mercador para a prisão de Perugia
Francisco nasceu em Assis no fim de 1181 ou no início de 1182. Foi batizado Giovanni e chamado Francesco pelo pai, Pietro di Bernardone, um mercador com ligações ao comércio francês. Cresceu numa cidade comunal onde famílias nobres, comerciantes e grupos populares disputavam poder. As fontes descrevem gosto por festas e ambições de cavalaria.
Em 1202 participou na batalha de Collestrada contra Perugia. A derrota dos homens de Assis levou-o a uma prisão próxima de um ano, seguida de doença. Tentou ainda juntar-se a outra campanha, mas regressou depois de chegar a Spoleto. A cronologia da Ordem dos Frades Menores apresenta uma conversão progressiva, não a mudança instantânea de uma personagem sem passado.
O Testamento recorda primeiro os leprosos
No Testamento ditado em 1226, Francisco afirma que ver leprosos lhe parecia amargo. Deus conduziu-o para o meio deles e, depois de ter usado misericórdia, a amargura transformou-se em doçura. A passagem tem valor especial porque pertence à forma como ele próprio decidiu recordar o início da conversão.
As biografias seguintes narram um beijo dado a um leproso. A cena comunica a rutura, mas não deve substituir a formulação mais sóbria do texto. A doença então chamada lepra envolvia exclusão, medo e separação física. Aproximar-se significou abandonar a distância confortável do benfeitor e aceitar uma relação que o expunha ao corpo e à vida do outro.
O crucifixo de São Damião e a renúncia aos bens
Segundo as fontes hagiográficas, na igreja arruinada de São Damião Francisco ouviu do crucifixo um pedido para reparar a casa. Começou por restaurar materialmente São Damião, São Pedro e a Porciúncula. Mais tarde, a tradição viu nessas palavras uma reforma da Igreja realizada pela vida evangélica.
Francisco vendeu mercadorias do pai para financiar as obras e desencadeou um conflito. Diante do bispo de Assis, renunciou à herança e devolveu até a roupa. A nudez tornou-se imagem espiritual, mas o gesto tinha efeitos económicos e jurídicos. Rompia com a segurança da família mercantil e passava a depender de trabalho, hospitalidade e esmola.
Porciúncula: uma fraternidade antes de um grande convento
Por volta de 1208, Bernardo de Quintavalle, Pedro Cattani e outros juntaram-se a Francisco. Viviam junto à pequena igreja de Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula, saíam a pregar penitência e paz, trabalhavam e cuidavam de doentes. O nome escolhido, frades menores, indicava a vontade de não pertencer aos “maiores” da sociedade urbana.
Em 1209, Francisco e onze companheiros apresentaram em Roma uma forma breve de vida. Inocêncio III deu aprovação oral. Esse passo desmente a ideia de um fundador que pretendia manter-se sempre fora de qualquer estrutura. A fraternidade procurou reconhecimento e obediência, ainda que o crescimento viesse a criar tensões que não existiam no primeiro pequeno grupo.
A Regra de 1223 e a dificuldade de viver sem propriedade
Uma versão mais longa da Regra, hoje chamada não bulada, reuniu experiências dos primeiros anos. Após revisões, Honório III confirmou o texto definitivo a 29 de novembro de 1223. Os doze capítulos tratam de oração, jejum, trabalho, pobreza, pregação, governo e presença entre pessoas de outra religião.
A Ordem celebrou os seus oitocentos anos lembrando que não é um manifesto abstrato. Os frades não devem apropriar-se de dinheiro ou bens, trabalham e recorrem à esmola quando necessário. Aplicar o princípio a comunidades espalhadas por vários países levantou debates. No Testamento, Francisco insistiu que não estava a criar outra Regra, mas a recordar a prometida.
Clara não foi apenas companheira de Francisco
Clara de Assis deixou a família em 1212 e foi recebida na Porciúncula. Estabeleceu-se depois em São Damião com outras mulheres. Nasceram as Damas Pobres, mais tarde clarissas. Partilhavam a pobreza franciscana, mas a vida comunitária estável exigia organização distinta da itinerância dos frades.
Clara foi fundadora, escreveu e defendeu perante a Santa Sé o direito da comunidade a não possuir rendas. Reduzi-la a discípula afetuosa apaga a sua autoridade. A expansão incluiu ainda penitentes leigos, homens e mulheres que não abandonavam casa e família, origem da Ordem Franciscana Secular.
Os primeiros franciscanos chegaram cedo a Portugal
Em 1219, cinco frades partiram para Marrocos e morreram no ano seguinte. As suas relíquias foram levadas para Coimbra. Fernando, cónego regrante de Santa Cruz, ficou profundamente impressionado e pediu para entrar nos frades menores, tomando o nome António. Tentou também seguir para Marrocos, adoeceu e acabou em Itália.
A biografia de Santo António apresentada por Bento XVI situa-o no Capítulo das Esteiras de 1221, onde encontrou Francisco. Mais tarde recebeu dele autorização para ensinar teologia aos frades, desde que o estudo não apagasse o espírito de oração. A tradição portuguesa e a história do fundador encontram-se, assim, em documentos da primeira geração.
O encontro com o sultão aconteceu durante uma cruzada
Francisco viajou para o Egito em 1219, enquanto exércitos cristãos sitiavam Damieta. Atravessou as linhas e foi recebido pelo sultão aiúbida al-Malik al-Kamil. Fontes cristãs próximas confirmam o encontro, mas não registam um diálogo completo e imparcial. Provas pelo fogo e intenções secretas surgem em narrativas que devem ser avaliadas segundo a data e o género.
Na carta do oitavo centenário, a Ordem lê o episódio como herança de diálogo. A Regra recomenda aos frades entre muçulmanos que evitem litígios e se submetam por amor de Deus, podendo anunciar a fé quando o considerem oportuno. A diferença religiosa permanece; a conduta desarmada interrompe a lógica da guerra.
Greccio influenciou o presépio sem inventar tudo
No Natal de 1223, Francisco preparou em Greccio uma manjedoura com feno, boi e burro. A celebração noturna não era um conjunto de figuras como os presépios domésticos atuais. O centro era a liturgia e a pobreza do nascimento de Jesus, tornada visível e próxima para a população.
Já existiam representações da Natividade. Greccio deu, contudo, um impulso decisivo ao costume de recriar Belém com elementos locais. Os presépios portugueses incorporaram depois arquitetura, ofícios e paisagens próprias. A herança franciscana não consiste num modelo fechado, mas em deixar que o relato seja visto dentro de uma comunidade concreta.
La Verna e os estigmas nas fontes antigas
Em 1224, durante um retiro no monte La Verna, as primeiras biografias situam uma visão e o aparecimento de feridas semelhantes às da crucificação. Francisco não deixou uma descrição autobiográfica detalhada. Um pergaminho com louvores e uma bênção para frei Leão está ligado ao retiro; o relato corporal vem de testemunhas e hagiógrafos.
A Igreja interpretou os estigmas como conformidade com a paixão de Cristo. O trabalho histórico deve indicar a natureza religiosa das fontes, sem fingir possuir um relatório médico. Excluir o episódio para obter um Francisco apenas social seria tão seletivo como apresentar cada detalhe da hagiografia como observação independente.
O Cântico das Criaturas nasceu durante a doença
Em 1225, Francisco sofria de graves problemas de visão e outras doenças. Junto de São Damião compôs em língua úmbria o Cântico do irmão Sol. Sol, lua, estrelas, vento, água, fogo e terra participam no louvor dirigido a Deus. Estrofes sobre o perdão e a “irmã morte corporal” foram associadas à fase final.
A família franciscana celebrou em 2025 o oitavo centenário do Cântico. Não é uma canção escrita num passeio sem sofrimento. Junta beleza, conflito, reconciliação, fragilidade e morte. As criaturas não são divinizadas; são chamadas irmãs porque partilham origem e orientam o louvor para o Criador.
O padroeiro da ecologia foi proclamado em 1979
João Paulo II proclamou São Francisco de Assis padroeiro celestial dos que cultivam a ecologia através da carta apostólica Inter sanctos, de 29 de novembro de 1979. O documento invoca o seu respeito pelas obras do Criador e o Cântico.
O título não transforma um homem medieval num profissional ambiental antecipado. A sua linguagem oferece outra relação com a matéria: água, terra e animais não são apenas recursos. Uma atualização coerente liga cuidado ambiental, pobreza, limites do consumo e justiça para quem sofre primeiro a degradação, sem eliminar a fé que estrutura o poema.
Doença, morte e festa a 4 de outubro
Francisco recebeu tratamentos, incluindo uma cauterização junto aos olhos, sem recuperar. Pediu para ser levado à Porciúncula e morreu ao anoitecer de 3 de outubro de 1226. A família franciscana celebra nessa noite o Transitus; a memória litúrgica ocorre no dia 4.
Foi enterrado inicialmente na igreja de São Jorge. Gregório IX canonizou-o em Assis a 16 de julho de 1228, menos de dois anos depois. A nova basílica começou a ser construída e os restos mortais foram transferidos em 1230. A rapidez consolidou uma devoção internacional enquanto ainda viviam muitos companheiros.
A riqueza artística junto do túmulo do pobre
Cimabue, Giotto, Simone Martini e Pietro Lorenzetti fizeram da basílica uma referência da arte europeia. O contraste entre o programa monumental e a pobreza de Francisco foi percebido dentro da própria história franciscana. Não se resolve chamando à arte traição automática nem escondendo a tensão.
A UNESCO inclui Assis e os lugares franciscanos como um conjunto de cidade, basílicas, eremitérios e paisagem. São Damião, Rivotorto, Porciúncula e Carceri correspondem a momentos distintos. Terremotos, restauro e pressão turística mostram que o património exige gestão viva.
Escritos próprios e vidas de santos
As Regras, o Testamento, cartas, orações, admoestações e o Cântico preservam a voz de Francisco, embora não formem uma autobiografia completa. Para as cenas narrativas dependemos de Tomás de Celano, Julião de Espira, da Legenda dos três companheiros, da Compilação de Assis, de Boaventura e de outros textos.
Esses autores recolheram memórias próximas, mas escreveram para edificar e em momentos diferentes da evolução institucional. A edição académica das fontes franciscanas antigas permite comparar versões. Relatos como o sermão às aves ou o lobo de Gubbio podem ser lidos pelo sentido que transmitem sem receber uma falsa certificação documental.
Como reconhecer Francisco na arte
O hábito pardo ou cinzento, o cordão, a tonsura e os estigmas são atributos constantes. Um crucifixo sublinha a paixão; um livro aponta para a Regra; aves e lobo exprimem a fraternidade com as criaturas e narrativas populares. As imagens selecionam sempre uma interpretação.
O cabeçalho utiliza uma pintura de Cimabue, datada de 1277-1280. A página de Wikimedia Commons identifica-a como domínio público. A figura magra, o rosto severo e as marcas das mãos pertencem a uma memória próxima da primeira geração, diferente do santo infantilizado de algumas imagens recentes.
Mais exigente do que o “santo dos animais”
A bênção de animais no dia 4 de outubro desenvolve um aspeto legítimo, mas não resume São Francisco de Assis. Ficam de fora os leprosos, a renúncia ao dinheiro, a Regra, a obediência e a viagem ao campo muçulmano. “Pacifista” e “ecologista” também precisam de contexto para não o transformar num contemporâneo imaginário.
A sua atualidade encontra-se no choque entre condições reais: filho de comerciante que recusou a propriedade, antigo combatente que atravessou linhas sem armas, doente quase cego que louvou a luz. Essas escolhas não oferecem uma mascote confortável. Interrogam a forma como ligamos fé, dinheiro, paz, vulnerabilidade e criação.
Fontes consultadas
- Ordem dos Frades Menores, vida e cronologia.
- Testamento de Francisco.
- Bento XVI, audiência de 27 de janeiro de 2010.
- Bento XVI, Santo António e a primeira geração franciscana.
- OFM, oitocentos anos da Regra.
- OFM, encontro com al-Malik al-Kamil.
- Família franciscana, Cântico das Criaturas.
- João Paulo II, Inter sanctos.
- UNESCO, Assis e lugares franciscanos.
- Cimabue, retrato de Francisco: origem e domínio público.
Perguntas frequentes
Quando se celebra São Francisco de Assis?
A 4 de outubro. Francisco morreu na noite de 3 de outubro de 1226, recordada pelas comunidades franciscanas através da celebração do Transitus.
Quando e onde nasceu Francisco?
Nasceu em Assis, na Úmbria, no fim de 1181 ou no início de 1182. Foi batizado Giovanni e chamado Francesco pelo pai.
Francisco fundou a Ordem franciscana?
Da sua fraternidade nasceu a Ordem dos Frades Menores. Inocêncio III aprovou oralmente a primeira forma de vida e Honório III confirmou a Regra definitiva em 1223.
Francisco inventou o presépio?
A celebração de Greccio em 1223, com manjedoura, feno, boi e burro, deu um impulso decisivo à tradição. Já existiam imagens da Natividade e ainda não era um presépio doméstico de figuras.
Francisco encontrou-se com um sultão muçulmano?
Sim. Em 1219, o sultão al-Malik al-Kamil recebeu-o junto de Damieta. O encontro está documentado, mas não existe uma transcrição neutral completa da conversa.
Porque é padroeiro da ecologia?
João Paulo II proclamou-o padroeiro dos que cultivam a ecologia em 1979, devido à sua relação com a criação e ao Cântico das Criaturas.