A tradição secular da vinda apostólica a Caesaraugusta
A piedade católica conserva a memória da vinda da Virgem Maria em carne mortal às margens do rio Ebro, na colónia romana de Caesaraugusta, a 2 de janeiro do ano 40 d.C. De acordo com a narrativa piedosa, o apóstolo Santiago Maior encontrava-se desanimado diante das dificuldades da evangelização na Hispânia romana, momento em que Maria lhe terá surgido para lhe conferir alento espiritual e entregar uma coluna de jaspe como penhor de constância na fé.
A investigação eclesiástica e documental regista que os primeiros testemunhos manuscritos conservados sobre esta vinda surgem no arquivo catedralício de Saragoça entre os séculos XIII e XIV. Embora a liturgia católica celebre e acolha este acontecimento como uma venerável tradição secular, a teologia distingue o facto empírico e histórico da receção espiritual e litúrgica que alimentou sucessivas gerações no santuário aragonês.
A teologia da solidez: o simbolismo do fuste de jaspe
A coluna sobre a qual se ergue a imagem sacra não é um pedestal ornamental, mas o eixo doutrinal do culto. Trata-se de um fuste de jaspe de 1,77 metros de altura e 24 centímetros de diâmetro, preservado no seu alinhamento histórico primitivo e revestido a bronze e prata trabalhada para garantir a sua conservação material.
Na hermenêutica cristã, a coluna evoca a condução do povo de Deus através do deserto pela coluna de nuvem e de fogo descrita no livro do Êxodo, além de corporizar a solidez inabalável da Igreja referida nas cartas paulinas. A firmeza mineral do jaspe converte-se no suporte visível da esperança cristã, projetando a ideia de que a fé proclamada pelo ministério apostólico permanece inquebrantável perante as vicissitudes históricas e temporais.
A escultura gótica do século XV e a sua atribuição artística
No topo da coluna encontra-se a imagem titular de Nossa Senhora do Pilar, uma escultura esculpida em madeira dourada e policromada com 36 centímetros de altura. Representa a Virgem com o Menino ao colo, trajando vestes ricas que caem em dobras lineares características da fase final do gótico europeu.
A historiografia de arte contemporânea, baseada nos estudos da professora María del Carmen Lacarra Ducay sobre a oficina aragonesa e a influência da Borgonha, atribui a conceção da obra ao escultor Juan de la Huerta, executada por volta de 1435. Esta datação relaciona-se com a necessidade de substituir o retábulo medieval destruído por um incêndio anterior. Não se conserva o contrato formal da encomenda, pelo que a autoria permanece no âmbito da atribuição estilística documentada.
Da Sé moçárabe à colegiada gótico-mudéjar
A ocupação cristã de Saragoça em 1118 por Afonso I, o Batalhador, permitiu ao bispo Pedro de Librana restabelecer o culto na igreja de Santa María la Mayor, construída sobre o antigo substrato moçárabe e tardo-romano. Este templo românico acolheu o primeiro florescimento institucional da veneração mariana no contexto da reconquista aragonesa.
Entre 1293 e 1296, sob a liderança do bispo Hugo de Mataplana, o edifício degradado sofreu uma profunda reestruturação que o transformou numa colegiada gótico-mudéjar. A remodelação obteve respaldo apostólico mediante uma bula do Papa Bonifácio VIII, consolidando a importância do enclave de peregrinação no vale do Ebro.
O retábulo de Damián Forment e a transição renascentista
O início do século XVI trouxe uma transformação plástica decisiva com a contratação do mestre valenciano Damián Forment. Entre 1509 e 1515, Forment executou em alabastro o monumental retábulo-mor da colegiada, combinando estruturas de transição com a nova linguagem renascentista nos relevos marianos.
Esta intervenção monumental marcou o diálogo da basílica com a tratadística do Renascimento. A obra de Forment testemunha a contínua valorização cenográfica do espaço litúrgico em torno do núcleo sagrado da coluna, estabelecendo um padrão artístico de referência para a Coroa de Aragão.
O processo canónico do Milagre de Calanda
A 29 de março de 1640, sucedeu na localidade aragonesa de Calanda o episódio atribuído à intercessão de Nossa Senhora do Pilar, no qual o camponês Miguel Juan Pellicer afirmou ter recuperado de forma súbita a perna direita amputada dois anos antes no Hospital de Gracia, em Saragoça.
O arcebispo de Saragoça, Pedro de Apaolaza Ramírez, abriu um processo canónico que decorreu entre 1640 e 1641. O tribunal eclesiástico inquiriu formalmente 25 testemunhas presenciais, entre as quais médicos e cirurgiões que haviam praticado e assistido à amputação. A 27 de abril de 1641, o arcebispo promulgou uma sentença declarando o evento como milagre, facto que provocou uma intensificação sem precedentes da devoção no território peninsular.
Patronatos cívicos e a união capitular de 1676
O Conselho Municipal de Saragoça declarou a Virgem do Pilar padroeira única da cidade a 20 de maio de 1642. Décadas mais tarde, em 1678, as Cortes do Reino de Aragão, reunidas sob a presidência do vice-rei Pedro Antonio de Aragão, estenderam solenemente o patronato a todo o território aragonês.
No plano institucional, o Papa Clemente X promulgou em 1676 a célebre Bula de União. Este decreto pontifício fundiu os cabidos da Sé do Salvador (La Seo) e do Pilar, estabelecendo uma estrutura capitular unificada e conferindo ao santuário o estatuto de concatedral metropolitana de pleno direito.
A basílica barroca e a Santa Capela de Ventura Rodríguez
Em 1681 iniciou-se a construção do grandioso templo barroco de traça classicista, segundo o projeto delineado por Felipe Sánchez e Francisco de Herrera, o Moço. A monumental fábrica de tijolo e múltiplas cúpulas foi pensada para acolher as massas de peregrinos que afluíam de toda a monarquia hispânica.
A reordenação interna do espaço sagrado culminou nos trabalhos executados entre 1750 e 1765 pelo arquiteto ilustrado Ventura Rodríguez. O arquiteto concebeu a Santa Capela como um templete elipsoidal independente, construído em mármores e bronzes pelo escultor José Ramírez de Arellano, garantindo que a coluna de jaspe permanecesse exatamente no seu lugar primitivo sem qualquer deslocamento.
Os frescos murais de Francisco de Goya
O templo acolhe obras maiores da juventude e maturidade de Francisco de Goya. Em 1772, após o seu regresso de Itália, Goya pintou ao fresco a abóbada do Coreto da Virgem, representando o tema da Adoração do Nome de Deus pelos Anjos com expressivo domínio da luz e da perspetiva ilusionista.
Entre 1780 e 1781, o artista executou a pintura mural da monumental cúpula Regina Martyrum na nave norte da basílica, ladeada por quatro pendículos que ilustram as virtudes cristãs. A intensidade expressiva e a fatura solta das figuras suscitaram na época tensões com a comissão de obras do cabido, constituindo hoje um dos conjuntos murais mais relevantes do património setecentista espanhol.
Ritos devocionais: o beijo à coluna e a apresentação das fitas
A vivência litúrgica no santuário expressa-se através de práticas seculares rigidamente reguladas. Uma das mais características consiste no beijo à coluna, realizado através de um óculo aberto na parte posterior da Santa Capela, onde o jaspe se encontra diretamente exposto ao contacto e veneração dos fiéis.
Existe igualmente a prática litúrgica e popular de expor a imagem sem manto nos dias 2, 12 e 20 de cada mês, datas associadas à tradição da vinda, à festa canónica e à coroação, permitindo a contemplação da cobertura de prata que envolve o fuste. Paralelamente, consolidou-se o uso das designadas «medidas da Virgem», fitas de tecido em seda com o comprimento exato de 36 centímetros — a altura da escultura gótica —, que os peregrinos adquirem como objeto devocional de proteção e ligação orante ao santuário.
Projeção missionária e veneração no espaço ibero-americano
A celebração da festa litúrgica a 12 de outubro, data ratificada pela Sagrada Congregação dos Ritos a 7 de agosto de 1723 sob o pontificado de Inocêncio XIII, coincidiu historicamente com a chegada da expedição de Cristóvão Colombo à América em 1492. Esta confluência calendárica converteu Nossa Senhora do Pilar num símbolo de proteção espiritual para os missionários e evangelizadores que partiram da Península Ibérica.
Durante os séculos XVII e XVIII, ordens religiosas levaram a devoção pilarista para as capitanias do Brasil, para o México, Argentina e Filipinas. Em muitas dessas paragens foram erigidas paróquias, confrarias e ermidas sob a sua invocação, assumindo a coluna como arquétipo da propagação da fé católica nos territórios além-mar.
Marcos contemporâneos: do século XX à atualidade
A 20 de maio de 1905, teve lugar a solene coroação canónica da imagem com a concessão da Santa Sé sob o pontificado de São Pio X. Décadas mais tarde, em plena Guerra Civil Espanhola, a 3 de agosto de 1936, quatro bombas de aviação atingiram o templo e as suas imediações sem que nenhuma detonasse; duas dessas bombas permanecem desativadas e expostas no interior da basílica, facto que a piedade popular atribuiu à guarda mariana, enquanto estudos técnicos apontam defeitos no armamento e na baixa altitude do lançamento.
A 24 de junho de 1948, o Papa Pio XII outorgou à catedral o título litúrgico de Basílica Menor. A vocação apostólica do santuário foi sublinhada pelo Papa João Paulo II na sua visita de 10 de outubro de 1984, ao orar diante do pilar e enfatizar a dimensão missionária que liga a fé de Nossa Senhora do Pilar à história dos povos de matriz hispânica e lusófona.
Fontes e leituras documentais
- Cabildo Metropolitano de Zaragoza. «La Imagen de la Virgen». Catedrales de Zaragoza. Disponível em: https://catedraldezaragoza.es/la-imagen-de-la-virgen/ (Acesso a dados dimensionais, cronologia artística e exposição sem manto).
- Cabildo Metropolitano de Zaragoza. «La Santa Capilla». Catedrales de Zaragoza. Disponível em: https://catedraldezaragoza.es/la-santa-capilla/ (Informação arquitetónica sobre o projeto de Ventura Rodríguez e execução escultórica).
- Cabildo Metropolitano de Zaragoza. «El Templo del Pilar». Catedrales de Zaragoza. Disponível em: https://catedraldezaragoza.es/el-templo-del-pilar/ (História da fábrica barroca e a Bula de União de 1676).
- Cabildo Metropolitano de Zaragoza. «El Pilar - Santo Templo Metropolitano». Catedrales de Zaragoza. Disponível em: https://catedraldezaragoza.es/el-pilar/ (Documentação sobre privilégios pontifícios e visitas papais).
- Fundación Goya en Aragón. «Catálogo de obras: Retrato de Ventura Rodríguez». Disponível em: https://fundaciongoyaenaragon.es/obra/ventura-rodriguez/ (Contexto biográfico e artístico do arquiteto da Santa Capela).
- Real Academia de la Historia. «Biografía de Juan de la Huerta». Diccionario Biográfico electrónico. Disponível em: https://dbe.rah.es/biografias/12470/juan-de-la-huerta (Atribuição e cronologia da imaginária gótica aragonesa).
- Real Academia de la Historia. «Biografía de Damián Forment». Diccionario Biográfico electrónico. Disponível em: https://dbe.rah.es/biografias/9796/damian-forment (Dados documentais sobre a fatura do retábulo-mor em alabastro).
Perguntas frequentes
O que representa a coluna de jaspe venerada na basílica?
A coluna de 1,77 metros de altura simboliza a solidez doutrinal da Igreja e a perseverança na fé cristã. A tradição afirma que foi entregue por Maria ao apóstolo Santiago como testemunho do compromisso apostólico na evangelização da Hispânia romana.
Qual é a origem histórica da imagem de madeira exposta sobre a coluna?
A escultura em madeira dourada e policromada mede 36 centímetros e pertence ao gótico tardio do século XV. A historiografia artística atribui a sua execução ao escultor Juan de la Huerta, por volta de 1435, após a perda do retábulo anterior num incêndio.
Quando é que a imagem é exposta sem manto litúrgico?
A imagem permanece sem manto nos dias 2, 12 e 20 de cada mês. Nestas datas, os fiéis podem contemplar a cobertura cilíndrica de prata que reveste o fuste de jaspe, recordando a data tradicional da vinda, a festa litúrgica e a coroação.
O que são as fitas ou medidas da Virgem do Pilar?
São fitas de seda vendidas no santuário com o comprimento exato de 36 centímetros, correspondente à altura da escultura da Virgem. Servem como recordação devocional de peregrinação e símbolo de proteção física e espiritual para os doentes e devotos.
Em que consistiu o processo do Milagre de Calanda em 1640?
O arcebispado de Saragoça realizou uma comissão de inquérito com 25 testemunhas para examinar a restituição da perna amputada ao camponês Miguel Pellicer. A sentença canónica formal de 1641 declarou o evento de origem miraculosa pela intercessão da Virgem.
Por que razão Nossa Senhora do Pilar está ligada à evangelização ibero-americana?
A coincidência da celebração litúrgica a 12 de outubro com a chegada de Cristóvão Colombo à América em 1492 favoreceu a proclamação da Virgem do Pilar como símbolo tutelar das missões ibéricas nos territórios coloniais da América e das Filipinas.