A Memória Destruída de Santa Maria e a Salvaguarda da Talha de Nossa Senhora da Almudena

Fachada principal iluminada de la Catedral de la Almudena de Madrid al anochecer

A demolição de 1868 e a perda da igreja de Santa Maria la Mayor

Em finais de 1868, na sequência dos acontecimentos políticos da Revolução Gloriosa, o município de Madrid ordenou a demolição integral da antiga igreja paroquial de Santa Maria de la Almudena. A justificação oficial assentava na necessidade de executar o alargamento da Calle Mayor e abrir novos eixos viários na zona ocidental da cidade. O edifício, que durante séculos constituíra a matriz paroquial mais antiga de Madrid, ruiu sob as picaretas sem que os protestos de eruditos e setores eclesiásticos conseguissem travar a decisão administrativa.

A perda do templo provocou o desaparecimento irreversível de estruturas arquitetónicas medievais e modernas, além da dispersão de retábulos, capelas funerárias e bens artísticos acumulados desde a Baixa Idade Média. No meio da destruição física daquele espaço sacro, a principal preocupação dos responsáveis eclesiásticos centrou-se no resgate e transferência da escultura titular, assegurando que a devoção a nossa senhora da almudena mantivesse a sua continuidade material noutros templos da capital.

A escultura gótica tardia e o debate sobre a autoria toledana

A imagem venerada como nossa senhora da almudena é uma escultura de madeira de pinho dourada e policromada, datável de finais do século XV ou dos primeiros anos do século XVI. Trata-se de uma Virgem entronizada com o Menino Jesus, cujo tratamento de panejamentos e proporções anatómicas a insere no gótico tardio castelhano, com forte influência da escola artística de Toledo.

A historiografia de arte não localizou até ao momento nenhum contrato de encomenda ou documento de pagamento que comprove documentalmente o seu autor. Especialistas e investigadores atribuem predominantemente a conceção da peça à oficina de Diego Copín de Holanda ou sugerem a colaboração direta de Sebastián de Almonacid, ambos artífices de relevo no retábulo da Sé de Toledo. As análises estilísticas comparativas apontam afinidades formais com essas oficinas, embora a atribuição definitiva permaneça no plano da hipótese crítica fundamentada.

A hipótese do incêndio sob Henrique IV e a substituição da talha medieval

A discrepância cronológica entre as origens da paróquia e a fatura quinhentista da imagem conservada deu lugar a investigações documentais sobre a existência de uma efígie anterior. Crónicas modernas dos séculos XVI e XVII recolheram a notícia de um incêndio ocorrido no interior do templo durante o reinado de Henrique IV de Castela, no século XV, no qual a talha medieval precedente teria ficado destruída ou irremediavelmente danificada.

Esta contingência histórica explica por que razão a comunidade paroquial encomendou, por volta de 1500, a peça de madeira policromada que chegou aos nossos dias. A escultura atual não é um artefacto paleocristão nem visigótico, mas antes uma obra gótica tardia destinada a renovar o altar-mor da principal igreja da vila medieval.

Toponímia islâmica e a fortaleza andaluza do século IX

A designação da imagem e da igreja assenta numa raiz linguística árabe. O termo provém do hispano-árabe al-mudayna, que significa «a pequena cidade» ou «a cidadela». Esta referência toponímica documenta a presença do recinto militar amuralhado construído no século IX durante o emirado omíada de Muhammad I em Córdova, destinado a vigiar a bacia do rio Manzanares e travar incursões do norte.

A primeira evidência documental escrita que liga expressamente o título mariano ao templo surge apenas num testamento lavrado em Madrid em 1377, no qual se cita a paróquia maior sob essa designação. Antes desse registo, o templo era identificado documentalmente como Santa Maria da vila, o que demonstra a assimilação paulatina do vocábulo árabe pela população cristã pós-conquista.

O mito áureo do achado amuralhado e a crítica documental

Em torno da conquista de Madrid pelo rei Afonso VI de Leão e Castela em 1085, a piedade barroca desenvolveu um corpo narrativo complexo. Segundo a tradição fixada no século XVII por autores como Jerónimo de Salas Barbadillo na sua obra Patrona de Madrid restituida (1609), a escultura teria sido emparedada no ano 711 para escapar à invasão muçulmana e reencontrada milagrosamente a 9 de novembro de 1085, após a queda de um troço da muralha, com dois círios acesos há séculos.

A investigação histórica e arqueológica estabelece que não existia qualquer povoamento urbano muralhado ou estrutura fortificada visigótica no local antes da fundação militar islâmica do século IX. A narrativa do emparedamento prévio e do milagre das velas acesas constitui uma construção lendária da Idade Moderna destinada a dotar a imagem de uma antiguidade apostólica que a documentação medieval não sustenta.

A pintura da Virgem da Flor de Lis de 1623

Durante as obras de remodelação do retábulo-mor da igreja de Santa Maria em 1623, os operários retiraram estruturas de madeira e puseram a descoberto, na parede da abside, uma pintura mural medieval representando uma Virgem amamentando com uma flor-de-lis. O achado causou forte impacto devocional na corte de Filipe IV.

A documentação eclesiástica preservada esclarece que este fresco quinhentista ou trecentista constitui um testemunho iconográfico autónomo, não devendo ser confundido com a escultura de madeira de nossa senhora da almudena. A pintura mural foi arrancada e preservada em separado, testemunhando as sucessivas fases de intervenção decorativa sobre a capela-mor da antiga paróquia.

O Voto da Vila de 1646 e a doação do trono de prata barroco

Ao longo do século XVII, as instituições municipais vincularam formalmente a representação cívica à custódia da imagem. Em 1640, a Villa de Madrid formalizou a doação de um trono processional de prata lavrada barroca, concebido como peanha monumental para realçar a escultura nas cerimónias públicas e procissões.

Poucos anos depois, a 8 de setembro de 1646, o conselho municipal aprovou a ata do Voto da Vila, pela qual as autoridades locais se comprometeram a celebrar anualmente uma função religiosa solene em honra da padroeira. Este compromisso municipal surgiu na sequência de sucessivas rogativas motivadas por secas extremas e inundações que afetavam a produção agrícola da região madrilena, institucionalizando a presença oficial do município nas cerimónias litúrgicas da paróquia de Santa Maria.

A intervenção episcopal de 1890: despir a imagem gótica

Com o passar dos séculos XVII e XVIII, a escultura medieval foi coberta por sucessivos mantos bordados, saiotes e vestimentas de tecido postiço, de acordo com a estética barroca das imagens de vestir. Esta prática ocultou a policromia quinhentista original e as dobras talhadas no pinho.

A 18 de junho de 1890, o bispo Ciriaco María Sancha y Hervás determinou formalmente a retirada das vestes têxteis sobrepostas à talha. A medida visava restituir a visão direta da madeira lavrada e valorizar os elementos góticos da composição escultórica, marcando uma viragem na conservação do património sacro da diocese através da recuperação do aspeto primitivo da obra.

A ereção da nova catedral frente ao Palácio Real

A perda do templo paroquial de Santa Maria la Mayor acelerou os planos para edificar uma sede episcopal de grandes dimensões. A 4 de abril de 1883, o rei Afonso XII presidiu ao lançamento da primeira pedra do novo templo, traçado pelo arquiteto Francisco de Cubas num terreno situado em frente ao Palácio Real de Madrid.

O projeto enfrentou paragens financeiras, revisões estilísticas e alterações estruturais ao longo de mais de um século de obras. Apenas a 15 de junho de 1993, o Papa João Paulo II consagrou solenemente o edifício sob a invocação de Santa Maria a Real da Almudena, tornando-a a primeira e única catedral espanhola consagrada pessoalmente por um Sumo Pontífice.

Declarações pontifícias de padroado e a coroação canónica

A consolidação litúrgica da invocação deu-se plenamente no século XX através de vários decretos canónicos. A 10 de agosto de 1908, o Papa Pio X promulgou o decreto pontifício que declarou Nossa Senhora da Almudena padroeira principal da cidade de Madrid, estabelecendo a sua festa com missa e ofício próprios a 9 de novembro.

Quatro décadas mais tarde, a 10 de novembro de 1948, realizou-se a coroação canónica solene da imagem na Praça da Armaria do Palácio Real. Posteriormente, a 1 de junho de 1977, o Papa Paulo VI emitiu a carta apostólica Madritensis-Complutensis, estendendo o padroado da Virgem a toda a área geográfica da então Arquidiocese de Madrid-Alcalá.

Fontes e leituras documentais

Perguntas frequentes

Quando foi demolida a antiga paróquia de Santa Maria?

A histórica igreja de Santa Maria de la Almudena foi demolida em 1868 por decisão municipal, no âmbito dos planos urbanísticos de alargamento viário da Calle Mayor decorrentes da Revolução Gloriosa.

Qual é a datação real da escultura de Nossa Senhora da Almudena?

A imagem conservada é uma talha de pinho policromada do gótico tardio, executada por volta de 1500 por oficinas toledanas atribuíveis a Diego Copín de Holanda ou Sebastián de Almonacid.

Qual é a origem etimológica do termo Almudena?

Deriva do hispano-árabe al-mudayna («a pequena cidade» ou «cidadela»), em referência ao recinto fortificado militar muçulmano construído no século IX pelo emir Muhammad I na zona ocidental de Madrid.

O milagre dos círios acesos na muralha está documentado historicamente?

Não. Trata-se de uma elaboração devocional fixada nos séculos XVI e XVII pela literatura barroca. Não há registos coevos nem vestígios arqueológicos de fortificações visigóticas pré-islâmicas em Madrid.

Em que consistiu o Voto da Vila de 1646?

Foi um compromisso formal aprovado pelo conselho municipal de Madrid a 8 de setembro de 1646 para celebrar anualmente a festa da Virgem após rogativas por secas e cheias que afetaram a região.

Quando foi consagrada a atual catedral de Madrid?

A Catedral de Santa María la Real de la Almudena foi consagrada solenemente pelo Papa João Paulo II a 15 de junho de 1993, sendo a única catedral espanhola dedicada pessoalmente por um pontífice.