Salmo 91: oração de proteção e amparo do Altíssimo 🛡️

Há um salmo que os soldados levavam cosido no uniforme, que se reza nos hospitais e que as famílias murmuram quando a noite se prolonga. O Salmo 91 é, provavelmente, a oração de proteção mais querida do povo cristão. Não promete uma vida sem perigos — isso seria iludir-nos —, mas algo mais profundo: que, no meio do perigo, não estamos sozinhos nem ao relento. Porque é que este poema de há quase três anos continua a sustentar quem atravessa o medo?

Contexto histórico: o salmo do amparo

O Salmo 91 (numerado 90 na tradição latina da Vulgata) pertence ao Saltério, o livro de oração de Israel e da Igreja. É um «salmo de confiança»: não pede, mas proclama uma certeza. A tradição judaica chamou-lhe «o salmo dos encontros» ou «cântico contra os perigos», e rezava-se como proteção face aos temores da noite. A Igreja incorporou-o na oração de Completas dos domingos e solenidades, ou seja, na última oração antes de dormir: um modo de colocar o sono — imagem da morte — nas mãos de Deus.

Este salmo tem além disso um vestígio evangélico singular: o diabo citou-o para tentar Jesus. No deserto, propôs-lhe que se atirasse do pináculo do Templo, apoiando-se precisamente nos seus versículos: «Aos seus anjos deu ordens a teu respeito, para que te guardem... Eles levarão-te nas suas mãos» (cf. Mateus 4, 6; Salmo 91, 11-12). Jesus não negou a verdade do salmo, mas recusou usar a proteção de Deus como espetáculo: «Não tentarás o Senhor, teu Deus». Assim, o Salmo 91 ensina-nos a confiar sem presumir, a refugiar-nos em Deus sem pretender forçar a sua mão.

Texto completo do Salmo 91

Versão litúrgica em espanhol (Liturgia das Horas):

El que habita al amparo del Altísimo,
morará a la sombra del Omnipotente.
Di al Señor: «Refugio mío, alcázar mío,
Dios mío, confío en ti.»

Él te librará de la red del cazador,
de la peste funesta.
Te cubrirá con sus plumas,
bajo sus alas te refugiarás:
su brazo es escudo y armadura.

No temerás el espanto nocturno,
ni la flecha que vuela de día,
ni la peste que se desliza en las tinieblas,
ni la epidemia que devasta a mediodía.

Caerán a tu izquierda mil,
diez mil a tu derecha;
a ti no te alcanzará.
Nada más mirar con tus ojos,
verás la paga de los malvados.

Porque hiciste del Señor tu refugio,
tomaste al Altísimo por defensa,
no se te acercará la desgracia,
ni la plaga llegará hasta tu tienda.

Pues a sus ángeles ha dado órdenes
para que te guarden en tus caminos;
te llevarán en sus manos,
para que tu pie no tropiece en la piedra;
caminarás sobre áspides y víboras,
pisarás leones y dragones.

«Se puso junto a mí: lo libraré;
lo protegeré porque conoce mi nombre,
me invocará y lo escucharé.
Con él estaré en la tribulación,
lo defenderé, lo glorificaré;
lo saciaré de largos días
y le haré ver mi salvación.»

Não reproduzimos aqui a versão oficial desta oração no vosso idioma porque não nos consta com certeza; este é o texto espanhol. O original latino, que sim é comum a todas as línguas, aparece mais abaixo.

O original latino

Na Vulgata é o salmo 90; na numeração hebraica, o 91.

Qui hábitat in protectióne Altíssimi,
sub umbra Omnipoténtis commorábitur.

Reflexão e significado: confiar não é não ter medo

O salmo move-se entre três vozes: a do crente que proclama a sua confiança, a do salmista que o anima, e no fim a do próprio Deus que promete. Essa estrutura já é uma catequese: a oração começa em nós, mas termina sempre na resposta de Deus.

O que significa «viver à sombra do Altíssimo»?

«Aquele que habita ao abrigo do Altíssimo repousará à sombra do Omnipotente». A imagem é a das asas que cobrem o pintainho. Não fala de um escudo que evita todo o golpe, mas de uma presença que envolve. Jesus retomará esta imagem chorando sobre Jerusalém: «Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha reúne os seus pintainhos debaixo das asas!» (Mateus 23, 37). Refugiar-se em Deus não é esconder-se da vida, mas vivê-la a partir de uma certeza mais profunda do que o medo.

O salmo promete que não nos acontecerá nada de mal?

Aqui convém ler com fé adulta. «A desgraça não chegará até ti» não significa que o crente fique isento de doença, fracasso ou morte — o próprio Jesus conheceu a cruz. Significa que nenhum mal pode separar-nos do amor de Deus nem ter a última palavra. São Paulo traduz-o séculos mais tarde: «Nem a morte nem a vida... nos poderá separar do amor de Deus» (Romanos 8, 38-39). O salmo não promete uma bolha, mas uma companhia que nem a morte rompe.

Os anjos que «te levam nas mãos»

«Aos seus anjos deu ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos». Este versículo fundamenta a devoção ao anjo da guarda: Deus cuida de nós também através dos seus mensageiros (cf. Catecismo, n. 336). Mas recordemos como o usou o tentador: a proteção de Deus não é um seguro para a temeridade. Confiar é caminhar com paz, não provocar o perigo para «pôr à prova» a Deus.

Uma oração para hoje

Muita gente reza-o inteiro antes de dormir, devolvendo assim a noite a Deus; outros sussurram-no na sala de espera de um hospital, perante uma viagem, numa crise. Há quem aprenda de cor apenas a primeira estrofe para a repetir quando o medo aperta. Não é um amuleto: é um ato de fé que ordena o coração. Rezar o Salmo 91 não faz desaparecer a tempestade, mas muda quem a atravessa, porque já não a cruza sozinho.

O salmo que o diabo cita no deserto

Há um detalhe do salmo 91 que costuma passar despercebido e que muda a forma como se lê: é o texto que o tentador cita a Jesus no deserto. Propõe-lhe atirar-se do pináculo do Templo precisamente porque «dará ordens aos seus anjos a teu respeito, para te guardarem».

Sal 91, 11

Jesus não discute o salmo: discute o uso. Responde «não tentarás o Senhor teu Deus». Ou seja, a promessa de proteção não é um seguro que autorize a provocar o perigo. Quem reza este salmo procurando amparo faz bem; quem o lê como garantia de impunidade está a usá-lo como o usou o tentador.

É o salmo 91 na numeração hebraica e o 90 na grega e latina. Ambos os números designam o mesmo texto.

Quando se reza

  • Nas Completas de domingo, na Liturgia das Horas: é o salmo com que a Igreja encerra a semana antes de dormir.
  • No primeiro domingo da Quaresma, pela sua relação com as tentações.
  • Como oração de proteção em viagens, doença ou medo.

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Perguntas frequentes

É o salmo 90 ou o 91?

Os dois números designam o mesmo texto: 91 na numeração hebraica e 90 na grega e latina, que agrupam de outro modo dois salmos anteriores.

Porque se chama salmo de proteção?

Porque o seu tema é o amparo: quem habita ao abrigo do Altíssimo não teme o perigo. Daí o seu uso em viagens, doença ou medo.

É verdade que o diabo o cita no Evangelho?

Sim, nas tentações de Jesus no deserto. Cita-lhe o versículo dos anjos para lhe propor que se atire do Templo, e Jesus responde que não se deve tentar a Deus: a promessa não autoriza a provocar o perigo.

Quando é que a Igreja o reza?

Nas Completas de domingo, cada semana, e na liturgia do primeiro domingo da Quaresma.

Fontes

  • Sagrada Escritura: Salmo 91 (Vulgata 90); Mateus 4, 5-7; Lucas 4, 9-12; Mateus 23, 37; Romanos 8, 38-39.
  • Catecismo da Igreja Católica, nn. 302-314 (a Providência), n. 336 (os anjos da guarda).
  • Liturgia das Horas, Completas dos domingos.

Sobre o autor

Este artigo faz parte de «Oraciones y rezos cristianos», a série de Productos Religiosos dedicada a rediscutir o tesouro da oração católica. Escrevemos a partir da fé e com rigor, recorrendo sempre à Escritura, ao Catecismo e à tradição viva da Igreja, para que cada oração volte a ser o que sempre foi: um encontro com Deus.

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