Quando Santo Inácio de Loiola escreveu os Exercícios Espirituais na cova de Manresa por volta de 1522, deixou plantada uma semente que demoraria séculos a florescer por completo: a ideia de que toda a vida do cristão, até ao mais pequeno detalhe, se pode converter em louvor de Deus. Dessa intuição inaciana nasceu, já no século XIX, o Apostolado da Oração, fundado em 1844 pelo jesuíta francês François-Xavier Gautrelet no seminário de Vals, em França. Gautrelet procurava que os seminaristas que não podiam marchar em missões encontrassem um modo concreto de participar na obra apostólica da Igreja a partir da sua vida quotidiana.
Daí brotou esta fórmula matinal do Oferecimento de Obras, popularizada pelo padre Henri Ramière e unida desde 1890 às intenções mensais do Papa. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus, revelada a Santa Margarida Maria Alacoque em Paray-le-Monial (1673-1675), deu-lhe a sua tonalidade reparadora característica. Embora não faça parte da liturgia oficial, tem sido recomendada por sucessivos pontífices — Pio XII, Paulo VI, Francisco — como uma das práticas devocionais mais simples e fecundas do povo cristão.
Texto completo do Oferecimento de Obras
¡Oh, Jesús mío!
Por medio del Corazón Inmaculado de María,
yo te ofrezco las oraciones, obras,
trabajos, alegrías y sufrimientos de este día,
en reparación de nuestras ofensas,
por las intenciones de tu Sagrado Corazón,
por las intenciones de todos nuestros asociados
y, en particular, por las intenciones del Santo Padre
para este mes.
Amén.
Não reproduzimos aqui a versão oficial desta oração no vosso idioma porque não nos consta com certeza; este é o texto espanhol. O original latino, que sim é comum a todas as línguas, aparece mais abaixo.
Reflexão e significado
Há algo profundamente subversivo nesta oração, e convém dizê-lo com clareza: o Oferecimento de Obras faz cambalear a lógica do mundo segundo a qual umas horas do dia são "espirituais" — a missa de domingo, um momento de oração — e as outras são meramente profanas. Esta fórmula afirma exatamente o oposto. Afirma que o duche, o engarrafamento, o correio eletrónico difícil, a conversa com o colega maçador e a sandes das onze podem ser matéria de santidade. É o que o Concílio Vaticano II chamou a "vocação universal à santidade" (Lumen Gentium 40), e o que o Catecismo recolhe ao ensinar que "a vocação cristã é, por sua própria natureza, vocação ao apostolado" (CCC 863).
São Paulo já o tinha dito com uma contundência que continua a ser desconcertante: "Portanto, quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1 Cor 10, 31). O Oferecimento é exatamente isto: levar a sério esse "qualquer outra coisa". Não exige mudar o que fazes, mas o para quê. E esse deslocamento, aparentemente menor, muda tudo. Santa Teresa de Lisieux entendeu isto melhor do que quase ninguém quando descobriu a sua "pequena via": não podia ir em missões nem fazer grandes penitências, mas podia apanhar um alfinete do chão por amor e oferecê-lo. Essa mesma intuição sustenta o Oferecimento de Obras.
O Catecismo ensina além disso que "a oração do cristão consiste na união com a oração de Cristo" (CCC 2740), e aqui está a segunda chave teológica. Quando ofereço a minha jornada "pelas intenções do Sagrado Coração", não estou a fabricar uma intenção própria: uno-me à oração eterna que Cristo apresenta ao Pai. A minha manhã qualquer entra, por assim dizer, no fluxo sacerdotal de Cristo Sumo Sacerdote. Isto é o que a teologia chama o "sacerdócio comum dos fiéis" (CCC 1546), pelo qual todo o batizado pode oferecer espiritualmente a sua vida em união com a Eucaristia.
A menção do Coração Imaculado de Maria tampouco é decorativa. Maria é a primeira que soube dizer "faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1, 38), e por isso toda a oferenda cristã passa naturalmente pelas suas mãos. Carlo Acutis, o jovem beato que fascinava a sua mãe pela naturalidade com que vivia a Eucaristia, repetia que "todos nascemos originais, mas muitos morrem como fotocópias". O Oferecimento de Obras é justamente o oposto de viver como fotocópia: é decidir, cada manhã, que esta jornada concreta — irrepetível, minha, com o seu sabor único — a entrego a Deus para que a torne fecunda para além do que eu possa imaginar. Os frutos espirituais que a tradição atribui a esta prática são três: retificação constante da intenção, paciência perante as contrariedades — porque já estavam oferecidas antes de chegar — e comunhão real com a Igreja universal através das intenções do Papa.
A ideia de fundo: que o trabalho conte
O oferecimento de obras responde a uma pergunta muito concreta: o que é que se faz com as dez horas do dia em que não se está a rezar. A resposta da tradição é que também contam, se forem oferecidas. A base está em Paulo:
Col 3, 17
O Catecismo liga-o ao sacerdócio comum dos batizados: as tarefas ordinárias — o trabalho, a casa, o descanso — podem converter-se em oferenda. Isso muda o que se faz com uma manhã má: não a salva, mas deixa de ser tempo perdido.
Como se faz
- Ao levantar, antes de começar nada: é o que dá sentido à fórmula.
- Com intenção concreta: por alguém, por algo que preocupa. Um oferecimento genérico esquece-se dez minutos depois.
- Renovando-o ao meio-dia se o dia se tiver torcido, que é quando verdadeiramente serve.
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Perguntas frequentes
O que significa oferecer as obras?
Dedicar a Deus o que se vai fazer durante o dia: o trabalho, as tarefas, o que custar. Não muda a tarefa, muda para que se faz.
Quando se reza?
Ao levantar, antes de começar a jornada. Muitos renovam-no ao meio-dia, sobretudo se o dia se complicou.
É preciso dizer uma fórmula concreta?
Não. Circulam várias e todas são válidas. O que convém é que leve intenção concreta: por alguém ou por algo. Um oferecimento genérico esquece-se imediatamente.
Serve se o dia correr mal?
É precisamente para isso. Oferecer não garante que corra bem; faz com que o que corra mal tampouco seja tempo perdido.
Fontes
- Catecismo da Igreja Católica, nn. 863, 1546, 2740.
- Concílio Vaticano II, Constituição dogmática Lumen Gentium, n. 40.
- Sagrada Bíblia: 1 Coríntios 10, 31; Lucas 1, 38.
- Santa Teresa de Lisieux, História de uma Alma (manuscritos autobiográficos).
- Santo Inácio de Loiola, Exercícios Espirituais, "Princípio e Fundamento".
- Apostolado da Oração (Rede Mundial de Oração do Papa), Estatutos renovados aprovados pelo Papa Francisco em 2018.
Sobre o autor
Elena Pascual é missionária leiga vinculada ao movimento Hakuna desde os seus começos. Colabora em missões universitárias, campos de férias e encontros de Jornadas Mundiais da Juventude. Estudou Filosofia e Teologia na Universidade San Dámaso. Escreve para jovens que descobrem a oração como algo vivo e transformador, não como obrigação.
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