Miserere: A Oração que Transforma o Coração Arrependido (Texto Completo e Significado)

Miserere: La Oración que Transforma el Corazón Arrepentido (Texto Completo y Significado)

Um grito a partir do abismo: o salmo que a Igreja adotou como seu

O Miserere, identificado como Salmo 51 nas Bíblias atuais e como Salmo 50 na numeração grega e latina seguida pela liturgia romana, é atribuído ao rei David após o episódio narrado no segundo livro de Samuel, quando o profeta Natã o confrontou pelo seu pecado com Bate-Seba e a morte planeada de Urias, o hitita. O próprio cabeçalho do salmo, conservado no texto hebraico massorético, recolhe esta circunstância, o que fez desta pregaria, durante quase três milénios, a voz universal do arrependimento crente.

A Igreja incorporou-o desde cedo na sua oração oficial. Desde a reforma de São Bento no século VI, o Miserere é rezado todas as sextas-feiras na Liturgia das Horas, e a tradição associou-o especialmente ao tempo da Quaresma, ao rito penitencial de Quarta-Feira de Cinzas e ao ofício de Trevas da Semana Santa. Na piedade popular espanhola acompanha as Via-Sacras quaresmais e as procissões do Silêncio, onde versículos do salmo são cantados em castelhano ou em latim enquanto os penitentes percorrem as ruas.

Texto completo do Miserere (Salmo 50)

Misericordia, Dios mío, por tu bondad,
por tu inmensa compasión borra mi culpa;
lava del todo mi delito,
limpia mi pecado.

Pues yo reconozco mi culpa,
tengo siempre presente mi pecado:
contra ti, contra ti solo pequé,
cometí la maldad que aborreces.

En la sentencia tendrás razón,
en el juicio resultarás inocente.
Mira, en la culpa nací,
pecador me concibió mi madre.

Te gusta un corazón sincero,
y en mi interior me inculcas sabiduría.
Rocíame con el hisopo: quedaré limpio;
lávame: quedaré más blanco que la nieve.

Hazme oír el gozo y la alegría,
que se alegren los huesos quebrantados.
Aparta de mi pecado tu vista,
borra en mí toda culpa.

Oh Dios, crea en mí un corazón puro,
renuévame por dentro con espíritu firme;
no me arrojes de tu presencia,
no me quites tu santo espíritu.

Devuélveme la alegría de tu salvación,
afiánzame con espíritu generoso:
enseñaré a los malvados tus caminos,
los pecadores volverán a ti.

Líbrame de la sangre, oh Dios,
Dios, Salvador mío,
y cantará mi lengua tu justicia.
Señor, me abrirás los labios,
y mi boca proclamará tu alabanza.

Los sacrificios no te satisfacen;
si te ofreciera un holocausto, no lo querrías.
Mi sacrificio es un espíritu quebrantado;
un corazón quebrantado y humillado, tú no lo desprecias.

Señor, por tu bondad, favorece a Sión,
reconstruye las murallas de Jerusalén:
entonces aceptarás los sacrificios rituales,
ofrendas y holocaustos,
sobre tu altar se inmolarán novillos.

Não reproduzimos aqui a versão oficial desta oração no vosso idioma porque não nos consta com certeza; este é o texto espanhol. O original latino, que sim é comum a todas as línguas, aparece mais abaixo.

O original latino

O salmo é nomeado pela sua primeira palavra latina, Miserere.

Miserére mei, Deus, secúndum magnam misericórdiam tuam.
Et secúndum multitúdinem miseratiónum tuárum, dele iniquitátem meam.

Reflexão e significado

Quem se aproxima do Miserere descobre imediatamente que não se trata de uma autoacusação angustiada, mas de um ato de fé. David não olha para si mesmo em loop, mas olha para Deus. A primeira palavra do salmo em hebraico é jonneni, "tende piedade", e o verbo que acompanha o perdão não é jurídico, mas litúrgico: apagar, lavar, limpar. O orante pede para ser tratado como as vestes manchadas que o sacerdote submergia em água após os sacrifícios. Esta súplica é a matriz do sacramento da Reconciliação tal como hoje o celebramos. O Catecismo da Igreja Católica recolhe esta lógica quando ensina que "os movimentos do coração que nos levam à conversão e à penitência têm a sua origem e a sua finalidade no amor misericordioso do Pai" (CCC 1428), e precisa que a contrição perfeita nasce "do amor de Deus amado sobre todas as coisas" (CCC 1452), e não do medo do castigo.

O salmo revela uma verdade incómoda e libertadora ao mesmo tempo: o pecado, antes de ser ofensa moral, é a rotura de uma relação. "Contra ti, contra ti só pequei" não nega o dano feito a Bate-Seba nem a morte de Urias; afirma que toda a ferida ao próximo é, em última análise, uma ferida ao desígnio de Deus sobre a vida humana. Isto é o que São João recorda ao definir o pecado como "iniquidade" (1 João 3,4) e o que Santo Agostinho, comentando precisamente este salmo nas suas Enarrationes in Psalmos, expressa com uma das suas fórmulas mais célebres: ninguém cai senão por si mesmo, mas ninguém se levanta senão por Deus. Para Agostinho, o Miserere é o manual do converso, o itinerário de quem tocou o fundo e descobre que o fundo da sua miséria é mais superficial do que o abismo da misericórdia divina.

O centro teológico do salmo está no versículo "Ó Deus, cria em mim um coração puro". O verbo hebraico bará, "criar", é o mesmo que aparece em Génesis 1,1 referido à criação do mundo, e só Deus é o seu sujeito. Pedir um coração novo é pedir uma segunda criação, uma recriação interior que o crente não pode proporcionar a si mesmo. Aqui o salmo liga-se à promessa de Ezequiel: "Dar-vos-ei um coração novo, infundirei em vós um espírito novo" (Ezequiel 36,26). A Igreja leu sempre estas palavras como anúncio do Batismo e do dom do Espírito Santo, e por isso São João Paulo II, na encíclica Dives in misericordia (1980), insistia em que a misericórdia não é fraqueza, mas a forma mais alta do amor de Deus, capaz de restaurar o homem a partir de dentro.

O fruto espiritual do Miserere, segundo a tradição, é triplo. Primeiro, uma humildade sem amargura: quem o reza com sinceridade aprende a habitar a sua própria fragilidade sem deseperar dela. Segundo, um apostolado nascido do perdão recebido: "ensinarei aos maus os teus caminhos", diz o orante, antecipando a lógica do pecador perdoado que se torna testemunha. E terceiro, um louvor purificado, porque "a minha boca proclamará o teu louvor" só depois de o Senhor ter aberto os lábios fechados pela vergonha. Para quem hoje se aproxima da confissão, prepara uma Quaresma ou atravessa uma etapa escura, rezar devagar este salmo, uma estrofe por dia, é deixar que a Palavra faça na alma o que a água batismal fez um dia sobre a fronte.

O salmo que David reza depois do pior

O Miserere não é uma meditação abstrata sobre o pecado: a tradição põe-no na boca de David após o episódio de Bate-Seba e do assassínio de Urias, quando o profeta Natã lhe faz ver o que ele fez. Esse contexto explica o seu tom, que não pede desculpas nem atenuantes.

Sal 51, 3

E explica também a frase que o resume: «um coração quebrantado e humilhado, tu não o desprezas». Não oferece sacrifícios nem reparações; oferece a única coisa que lhe resta.

É o salmo 51 na numeração hebraica e o 50 na grega e latina. Por isso, nuns livros aparece como Salmo 50 e noutros como 51: é o mesmo texto.

Onde se reza

  • Nas Laudes de sexta-feira, na Liturgia das Horas: a Igreja reza-o todas as semanas no dia da Paixão.
  • Na Quarta-Feira de Cinzas e ao longo da Quaresma.
  • Como oração penitencial pessoal, na íntegra ou apenas o seu primeiro versículo.

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Perguntas frequentes

É o salmo 50 ou o 51?

Os dois números designam o mesmo texto. A numeração hebraica conta-o como 51 e a grega e latina como 50, porque agrupam de forma diferente dois salmos anteriores.

Quem o escreveu?

A tradição atribui-o a David após o episódio de Bate-Seba, e assim o recolhe o próprio cabeçalho do salmo. Os estudos modernos discutem a datação, mas o contexto penitencial é o que a liturgia sempre conservou.

Quando se reza o Miserere?

Nas Laudes de sexta-feira todas as semanas, na Quarta-Feira de Cinzas e durante a Quaresma, e como oração penitencial pessoal em qualquer momento.

Porque se canta tanto na Semana Santa?

Porque é o salmo penitencial por excelência e a liturgia de sexta-feira associa-o à Paixão. Daí as numerosas versões musicais, desde o canto chão até ao Miserere de Allegri.

Fontes

  • Bíblia Sagrada, Salmo 51 (50) e 2 Samuel 11–12, edição da Conferência Episcopal Espanhola (BAC, Madrid).
  • Catecismo da Igreja Católica, nn. 1422–1470 (sobre o sacramento da Penitência e da Reconciliação), especialmente nn. 1428 e 1452.
  • Santo Agostinho de Hipona, Enarrationes in Psalmos, comentário ao Salmo 50, em Obras completas de san Agustín, vol. XX (BAC, Madrid).
  • São João Paulo II, Carta encíclica Dives in misericordia (30 de novembro de 1980).
  • Profeta Ezequiel 36,25–27, sobre o coração novo e o espírito novo.
  • Liturgia das Horas, Laudes de Sexta-feira das quatro semanas e ofício da Quarta-Feira de Cinzas.

Sobre o autor

Fernando Ruiz é catequista leigo com mais de quinze anos de experiência na preparação de adultos para o Batismo e a Confirmação. Licenciado em Teologia pela Universidade Pontifícia de Salamanca, colabora habitualmente em grupos de oração e ateliers de *lectio divina*.

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