A Salve Regina: Texto Completo, História e Significado de uma Oração Eterna

Ilustración devocional de la oración Salve Regina

De Reichenau às catedrais da Europa: o nascimento de um grito

Conta a tradição que esta antífona nasceu no silêncio de um mosteiro nas margens do lago Constança, em pleno século XI. Atribui-se a sua composição a Hermann de Reichenau, chamado o Contracto, um monge beneditino que viveu prostrado por graves doenças e que, no entanto, escreveu tratados de astronomia, música e teologia. Daquele homem frágil, que conheceu o sofrimento na sua própria carne, brotou este canto à Mãe de Misericórdia. Não é coincidência: só quem chorou a sério sabe chamar «vale de lágrimas» a este mundo e suspirar a sério pela pátria do Céu.

A Igreja acolheu este hino como seu e incorporou-o como uma das quatro antífonas marianas finais da Liturgia das Horas, cantada no final de Completas durante boa parte do ano litúrgico. Rapidamente transbordou o coro monástico: os cruzados entoavam-na, as ordens religiosas adotaram-na e, segundo a tradição, foi S. Bernardo de Claraval que, ajoelhado perante a imagem da Virgem na catedral de Espira, acrescentóu as invocações finais «Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria!». Desde então, o povo cristão não deixou de a cantar ao fechar o dia e o Rosário, como um filho que, antes de adormecer, procura o colo da sua mãe.

Texto completo da Salve Regina

Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve. A vós bradamos, os degredados filhos de Eva; a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas.

O original latino

É nomeada pelas suas duas primeiras palavras: Salve Regina.

Salve, Regína, Mater misericórdiæ,
vita, dulcédo et spes nostra, salve.
Ad te clamámus, éxsules fílii Hevæ.
Ad te suspirámus, geméntes et flentes
in hac lacrimárum valle.
Eia ergo, advocáta nostra, illos tuos
misericórdes óculos ad nos convérte.
Et Iesum, benedíctum fructum ventris tui,
nobis post hoc exsílium osténde.
O clemens, o pia, o dulcis Virgo María. Amen.

Reflexão e significado

Irmãos, não nos enganemos: esta oração começa com uma confissão duríssima da nossa condição. «Exilados filhos de Eva.» Aqui está, em quatro palavras, todo o drama do homem. Somos os expulsos do Éden, aqueles a quem o Génesis descreve atirados para fora do jardim, com o caminho da árvore da vida guardado pelo querubim de espada flamejante (cf. Génesis 3,23-24). Vividos em terra estranha, longe de casa. Quem não reconhece este exílio não pode entender a Salve, porque continuará a acreditar que este mundo é a sua pátria definitiva. E não é. Toda a nossa vida é êxodo, peregrinação, Páscoa: uma passagem da escravidão à liberdade dos filhos de Deus.

Por isso clamamos a uma mulher. E quem é esta Rainha a quem gritamos desde o vale? O Catecismo di-lo com uma clareza que estarrecem: a maternidade de Maria na ordem da graça «dura sem cessar» e por isso é invocada na Igreja «com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro, mediadora» (CCC 969). Não é uma metáfora piedosa: quando rezamos «advogada nossa», estamos a confessar uma verdade de fé sobre a intercessão da Mãe do Redentor. E ao chamá-la «Mãe de misericórdia», fazemos exatamente o que o Catecismo ensina sobre a oração mariana: reconhecemo-nos «pobres pecadores» e dirigimo-nos à «Mãe da misericórdia, a Toda Santa» (CCC 2677).

Mas reparai bem onde tudo termina. A Salve não fica em Maria. É uma flecha que aponta para além dela: «mostrai-nos Jesus, fruto bendito do vosso ventre». Estas não são palavras inventadas por um monge medieval; são o eco direto da saudação de Isabel cheia do Espírito Santo: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!» (Lucas 1,42). Maria nunca retém para si o olhar do filho; remete-nos sempre para Cristo, como em Caná: «Fazei tudo o que ele vos disser» (João 2,5). Toda a devoção mariana autêntica é cristológica, ou não é devoção verdadeira.

E aqui está o fruto espiritual que esta oração produz quando rezada com fé: a esperança. S. Bernardo de Claraval, grande cantor da Virgem, ensinava que nos perigos, nas angústias e nas dúvidas, olhemos para Maria, a invoquemos a ela. A Salve é precisamente isso: o grito do batizado que, redescobrindo todos os dias o seu Batismo, sabe que foi arrancado do exílio de Eva e enxertado em Cristo. Quem a reza no fim do dia deposita o seu cansaço nas mãos da Mãe e adormece sabendo que «depois deste exílio» o espera, não o nada, mas um rosto: o de Jesus. Isso é morrer em esperança cristã (cf. CCC 1020). Não estamos sozinhos no vale. Temos Mãe, e a Mãe leva-nos ao Filho.

«Exilados filhos de Eva»: de onde vem essa imagem

A frase que mais baralha na Salve é aquela que se reza sem pensar: chamar-nos «exilados filhos de Eva». Não é uma licença poética medieval, é uma referência direta ao final do relato do Génesis, quando o homem é expulso do jardim.

A referência é Gn 3, 23.

Daí encadeia o resto da imagem: se somos exilados, isto é um exílio, e por isso «vale de lágrimas». A oração não está a dizer que a vida é desgraçada; está a situar quem reza numa história que começa fora de casa e termina a voltar. O «mostrai-nos Jesus» do final é esse regresso.

Quando se canta a Salve

  • No fim do terço, como despedida. É o seu uso mais conhecido.
  • Como antífona mariana de Completas na Liturgia das Horas durante boa parte do ano litúrgico. Cada tempo tem a sua, e a Salve é a do período mais longo.
  • Em despedidas e funerais, pelo seu tom de encomenda: canta-se a quem parte.

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Na loja: terços por encomenda.

Perguntas frequentes

Quem escreveu a Salve Regina?

A atribuição mais repetida é a de Hermann de Reichenau, monge beneditino do século XI conhecido como Hermann o Coxo. Não é uma autoria documentada com certeza: a oração pôde circular antes e ele fixá-la.

Por que diz «exilados filhos de Eva»?

Alude à expulsão do jardim no Génesis. Situa quem reza numa história que começa fora de casa, e por isso continua com «vale de lágrimas» e termina pedindo que nos seja mostrado Jesus: é o regresso.

Quando se reza a Salve?

No fim do terço e como antífona mariana de Completas durante boa parte do ano litúrgico. É também habitual em despedidas e funerais.

É o mesmo que a Ave-Maria?

Não. A Ave-Maria dirige-se a Maria com as palavras do anjo e de Isabel; a Salve é uma saudação de súplica que lhe chama Rainha e Mãe de misericórdia. No terço vão juntas mas cumprem funções distintas: uma repete-se, a outra encerra.

O que significa «Deus vos salve»?

É a fórmula castelhana antiga para saudar, equivalente ao Salve latino. Não pede que Deus a salve a ela: é um «salve», uma saudação solene.

Fontes

  • Catecismo da Igreja Católica, n. 969 (Maria, advogada, auxiliadora e mediadora).
  • Catecismo da Igreja Católica, n. 2677 (a oração à «Mãe da misericórdia»).
  • Catecismo da Igreja Católica, n. 1020 (a morte cristã e a esperança do encontro com Cristo).
  • Sagrada Bíblia: Génesis 3,23-24 (a expulsão do Éden); Lucas 1,42 (saudação de Isabel); João 2,5 (as bodas de Caná).
  • S. Bernardo de Claraval, Homilias em louvor da Virgem Mãe («Missus est»), homilia II.
  • Constituição dogmática Lumen Gentium (Concílio Vaticano II), n. 62, sobre os títulos marianos de advogada e mediadora.

Sobre o autor

Rosa Fernández percorre há mais de vinte anos o Caminho Neocatecumenal em várias comunidades de Espanha e Itália. Formada no itinerário catequético de Kiko Argüello e Carmen Hernández, escreve a partir da experiência do redescobrimento batismal e da centralidade da Palavra e da Eucaristia.

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